terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desafios... únicos!


Sábado, 11 de Dezembro, 21h30
Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo

Gershwin, a Utopia da Vanguarda e Outras Formas de Ouvir...

com
Mário Laginha, Maria João
Banda Simão da Veiga da Casa do Povo de Lavre 

(Ciclo de Outono - Câmara Municipal de Montemor-o-Novo)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A saque!


Depois de alguns anos de apatia, numa linha de comportamento assim do tipo “bate-me que eu deixo… e gosto”, o povinho acordou, ao verificar que estamos a chegar ao fundo, e desatou a chorar a sua preocupação em tudo quanto é sítio. Agora é que ele percebeu MESMO que os cortes, os apertos de cinto e a perda de regalias só o vão atingir a ele. Os que, a custo, ajudam na construção do país, com a sua força de trabalho, físico e intelectual, são os mais penalizados. Nunca se tinha imaginado que este paraíso à beira-mar plantado viesse a viver dias de verdadeiro inferno. Quem nos governa já não sabe o que fazer. Mas soube mentir – sim MENTIR. Há um ano, quando os jornalistas lhes perguntavam o que iria ser de nós, alguns políticos tiveram o descaramento de afirmar que a crise já tinha passado. E ainda ela não tinha chegado verdadeiramente.

Sabemos que a conjuntura global está uma miséria. Os países europeus da zona euro andam ao tio-ao-tio (a Alemanha está a safar-se, o que se torna, sob uma certa perspectiva, preocupante), mas são os políticos que devem ser responsabilizados pela situação. Não souberam, não perceberam, ou não quiseram perceber, o que aí vinha, não foram claros com o povo que os elegeu e acabaram por transformar o país num pântano de onde até os mosquitos se preparam para emigrar. Eles que não culpem apenas a conjuntura: foram anos e anos de bela vida, de enormes compadrios e comadrios, com gente do PSD e do PS bem amanhada com cargos e benesses, empregos para amigos e amigos de amigos, até não poderem mais. A isto acrescente-se as viagens, os banquetes, as visitas e uma trupe de gente a viajar, a comer e a luxar à sua e à minha custa. E é isto que custa. E é isto que eu não aceito.

domingo, 28 de novembro de 2010

Cantares ao Menino, no dia 18


Vamos ter luzes de Natal a dar um pouco de alegria às ruas e largos da cidade. Independentemente da decisão da autarquia em relação a esta questão, a opinião dos montemorenses nunca iria reunir consenso. Uns achavam que não devia haver iluminações para não se gastar o dinheiro que podia vir a fazer falta noutras coisas; outros achavam que umas iluminações mais modestas, como as deste ano, não iriam fazer grande mossa nos cofres da Câmara e, pelo mesmo, o Natal não seria tão entristecido como os políticos de Lisboa queriam que fosse. Eu, cá por mim, gosto de andar pelas ruas e largos da cidade, a cantar ao Menino com o Coral de São Domingos, num cenário verdadeiramente natalício. De pobres não passamos. E outros, de ricos, também não passam.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"O Montemorense" faz anos!


“O Montemorense”, mensário local e regional com várias décadas ao serviço da população, faz mais um ano de vida, o 29.º da 3.ª série. Foi nele que iniciei, em 1980, por iniciativa do meu amigo Leopoldo Gomes (genro de Tomé Adelino Vidigal, um dos fundadores), as lides na escrita jornalística. Interrompi essa missão para me dedicar, numa atitude assumidamente bairrista, a um outro projecto jornalístico que surgiu em 1989. Durante 14 anos escrevi exclusivamente para a “Folha de Montemor”.

Em 2003, após a minha saída desse projecto, fui convidado pelo padre Manuel Vieira para (re)integrar o grupo de colaboradores d’ “O Montemorense”, publicação a viver, nesse momento, uma “revolução” de imagem e até de conteúdo, sem no entanto deixar de seguir a linha editorial de índole cristã que a tinha caracterizado nas décadas anteriores. Mas o espaço era amplo e nele cabiam todas as ideias. Aceitei o convite e fiquei. E ainda lá estou.
Um abraço fraterno ao Director Pedro Conceição e a toda a equipa! 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

XVI Concerto de Outono


Coral de São Domingos


Grupo Vocal Trítono


segunda-feira, 15 de novembro de 2010



… O país está agonizante. Depois de termos confiado os nossos destinos a dezenas de políticos, ao longo destes trinta e tal anos depois de Abril, decidi que NUNCA mais vou votar. É esta desilusão que me invade que me faz ter a certeza de que mais ninguém se irá sentar na cadeira do poder com o meu voto. Se ninguém votar, ou se todos votarem em branco, a ficção de Saramago (Ensaio sobre a Lucidez) será uma realidade. E depois? Para caos, caos e meio. A liberdade, conquistada há uns anos nesse mesmo Abril, dá-me a possibilidade de, livremente, não confiar em mais nenhum político deste quintal cada vez mais malcheiroso e assustadoramente mal frequentado.




sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A entrevista... completa



Saíu hoje no jornal "Folha de Montemor" uma entrevista ao autor deste blogue, a propósito do lançamento do livro da sua autoria Outros Contos de Vila Nova.  Como a entrevista, realizada por escrito, enferma de algumas lacunas à qual o entrevistado é alheio, aqui fica o texto integral, ainda assim, com o seu pedido de desculpa aos lesados.
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1/ Este é o terceiro livro de contos. Pode dizer-se que é de facto o género literário preferido de João Luís Nabo? Porquê?

É, de facto, o meu género narrativo preferido. O conto pressupõe a utilização de uma dinâmica diferente no contar da história e, também, uma capacidade de economia narrativa. Digamos que a técnica de utilização da “quadratura” espaço/tempo/personagens/narrador é a que tenho treinado mais e que, por isso, utilizo mais. Sou, digamos, um curioso da escrita (escritores são o Saramago e o Lobo Antunes) de fôlego reduzido, mas que tenta utilizar essa característica da melhor forma. O Lago e O País do Esquecimento, duas pequenas novelas publicadas num só volume em 2005, vêm contrariar esta prática, porque são de uma extensão um pouco mais alargada. No entanto, são os contos que me fazem sentir mais confortável como contador de estórias.

2/Vila Nova é o centro da sua escrita. É um tributo que presta à cidade e suas gentes ou é porque estes contos partem sempre de episódios reais acontecidos em Montemor-o-Novo?

Vila Nova é, sem dúvida, (para quê negá-lo?), o nome ficcional da minha terra – Montemor-o-Novo – onde se passam aventuras simples, algumas estranhas, mas todas elas protagonizadas por personagens típicas, ligadas à povoação, com comportamentos característicos dos habitantes das vilas e aldeias do interior alentejano. Muitos leitores perguntam-me se eu passo para o papel histórias que me contam. Essa situação apenas aconteceu duas vezes: no conto “A Aposta”, que está na colectânea Alentejo Sem Fim (2004) e no conto “O Sinal”, publicado agora. Este último é uma história sobre a prisão do lutador antifascista montemorense João do Machado, um episódio que o próprio me contou há uns anos e que eu, com a sua autorização, ficcionei. Todas as outras narrativas são meras construções ficcionais sem qualquer ligação com acontecimentos reais.
No entanto, este livro tem algumas histórias de carácter muito pessoal, cujos protagonistas são precisamente membros da minha família – os meus filhos, a minha mulher e a minha mãe – o que não deixa de ser também um género um pouco “anfíbio”, uma mescla entre a autobiografia, as memórias e a ficção. Mas os leitores irão reparar que este terceiro livro é o mais “pessoal” e o mais introspectivo dos três, para além de ser dedicado ao meu pai que, neste momento concreto, merece todas as dedicatórias do mundo.

3/ A editora falou num possível romance. Para quando um romance de grande fôlego envolvendo a cidade?

Como referi anteriormente, sinto-me mais confortável na escrita de contos. Contudo, o romance é um objectivo que não se põe de parte. Há alguns projectos nesse sentido. Tenho um romance começado há uns anos, interrompido porque me apeteceu escrever contos (são mais práticos) e que aguarda agora novas investidas da minha parte. Como me escreveu uma amiga, terá de ser quando eu encontrar a altura certa. Mas a publicação de uma obra dessa envergadura não depende só de quem a escreve. Falo dos apoios que são fundamentais para levarmos adiante esse desiderato. Por exemplo, a Câmara Municipal de Montemor tem manifestado sempre uma enorme disponibilidade para apoiar a edição de todos os meus livros. Essa atitude, na minha opinião decisiva na concretização desses projectos, dá-me alguma segurança (a mim e à Editorial Tágide) para pensarmos seriamente no assunto. Devo assinalar também, desta vez, o apoio da Direcção Regional da Cultura do Alentejo, que muito nos honrou.

4/ Durante a apresentação do livro disse, cito, que “escrever ficção é sempre uma resposta ao caos que nos rodeia”. Para o João Luís a escrita é o tal ponto de equilíbrio num quotidiano muitas vezes absurdo?

A escrita, e a escrita de coisas inventadas, de ficção, portanto, é uma das formas de fugir ao real, mas com o objectivo de mostrar esse real sob um olhar crítico. Como refere Ítalo Calvino num dos seus ensaios, o acto da escrita parte sempre de um cenário de caos (são milhares as informações misturadas que temos ao nosso dispor para inserir nos contos) para, a partir daí, procedermos à organização dessa desordem, “limparmos” o que não faz falta, até termos a história que queremos que os outros leiam. Uma narrativa ficcional – conto, novela ou romance – é, assim, como se fosse um bloco de pedra que o escultor vai esculpindo, retirando tudo o que está a mais, eliminando todo e qualquer “ruído”, até ao aparecimento do objecto desejado, símbolo desse equilíbrio que se procura e não se encontra na vida de todos os dias. Só que, em vez de pedra, temos as palavras, mil vezes mais complexas, polissémicas e… terrivelmente fugidias.

5/ Segundo uma das responsáveis pela Editorial Tágide, uma das características dos seus contos, com muita acção e diálogos, é serem facilmente transponíveis para o teatro. Foi pensado?

Sou da área das literaturas. Logo, as minhas leituras passam pelos géneros literários todos: o narrativo, o lírico e o dramático. Por isso, é bem possível que na minha escrita haja a fusão dos três, de forma até inconsciente e que se manifesta nos meus textos, tal como foi referido na sessão. Curiosamente, “O Funeral da Dona Capitolina”, um dos contos do meu primeiro livro, foi encenado por alunos e professores da escola secundária onde trabalho e penso que resultou muito bem. Por isso, a Celina Veiga de Oliveira é capaz de ter razão. Mas quando estou a escrever não penso muito nessa questão. Nem muito nem pouco. Não penso, simplesmente.

6/Foi uma apresentação à qual compareceu imensa gente. Surpreendeu-o? Vê isso como a sua consagração como escritor ou as pessoas interessam-se mais quando se fala do seu espaço, da sua terra?

Consagração? Escritor? Não, claro que não. Na apresentação dos outros dois livros, a sala também esteve cheia. Por isso, o que senti foi, tão somente, um prazer imenso ao ver tanta gente que se deslocou à Biblioteca Municipal para ouvir e para ler o que escrevi desta vez. Percebi que continuo a ter muitos amigos que querem manifestar os seus afectos e a sua amizade estando presentes (quer chova, quer faça Sol) nos eventos onde estou envolvido. Senti que as pessoas vêem nos meus textos e na sua leitura uma forma de manifestarem também a sua paixão incondicional por Montemor, alguns, até, sem serem naturais da nossa cidade. Como professor que escreve contos, o que me deixa feliz é a vontade que as pessoas manifestam na leitura. E, sobretudo, quando alunos meus me dizem que andam a ler contos da minha autoria e me pedem pra autografar os livros que compraram. Isso é uma sensação indescritível. E ler é bom. Nem que seja uma história imaginária passada na terra onde nascemos, escrita por alguém com quem nos cruzamos na escola, na mercearia ou no mercado ou com quem tomamos um café às sextas-feiras de manhã.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Neve no alto do monte



Vai caindo, aos poucos, a neve, ao longo dos dias e, quando olhamos bem para o monte, reparamos que está bonito, alvo, de uma brancura serena. Quase não damos pela sua chegada mas, seguindo a lei da vida, a neve chega e fica. É então tempo de afrouxar o passo e, tantas vezes, encostar à berma da estrada já percorrida. Para sentir, de forma mais intensa, o valor da vida, os princípios que aprendemos e que aplicamos diariamente sem nos preocuparmos em perceber a sua origem. Para pensar a sério no valor dos afectos e das ligações entre pai e filho. Nunca as tinha imaginado tão fortes, nem vivido de forma tão intensa.



domingo, 7 de novembro de 2010

Eu queria uma ministra da educação. Obrigado.


A senhora, que o presidente da nossa dita república (regime que faz agora 100 anos, celebrados com esfusiantes manifestações de júbilo só para irritar os monárquicos como eu) empossou como ministra da educação, não me parece muito talhada para o cargo. Pode ter algum tacto para ganhar uns euros com umas histórias juvenis escritas à maneira da inimitável Enid Blyton, mas como ministra da educação, convenhamos que, nesse posto de tanta responsabilidade, o tactinho não é muito. Enfim, foi o melhor que Sócrates conseguiu arranjar, à pressa e meio atamancada, para acalmar os professores que já não podiam mais com a outra senhora, cujo nome já se me varreu, pela triste memória que ele invoca.

Para esta, a escritora de livros de aventuras, é tudo é muito giro, muito fixe, muito fantástico e, por isso, nada se tem resolvido para que os professores façam aquilo para que têm vocação (pelo menos grande parte deles): ENSINAR.
A senhora descobriu agora que o dia tem 24 horas (que giro!!), coisa que nós sabíamos há algum tempinho. Como é que ela acha que nós conseguimos dar aulas, preparar aulas, preparar reuniões, assistir a reuniões, entre outras tarefas, se o dia fosse mais pequeno? Portanto, ó santinha, não trate os meus alunos, nem os professores deles, como se tivessem todos 3 aninhos. E outra coisa: o professor não é um animador cultural ou um entertainer. Um professor ensina… se o ministério da educação o permitir.

Por isso, eu quero uma ministra da educação, não quero uma escritora de livros juvenis que vem fazer de ministra diante das câmaras de televisão. Nós, professores, sabemos perfeitamente que ela não é – repito, não é – uma ministra da educação. O que é, então? Não faço a mínima ideia.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A fuga dos galinhos


Portugal prepara-se para assistir à repetição, pela vez terceira, da mesma cena de fuga acobardada de quem já não sabe o que há-de fazer com o lixo que foi varrendo para debaixo do tapete. Lembram-se de um certo António Guterres? E de um inenarrável Durão Barroso? Lembram? Quando o barco começou a virar de borco, fugiram a setenta pés e foram sentar-se em tronos especiais, reservados para os ditos como recompensa merecida pelas obras feitas. Um deles, como Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, e o outro como Presidente da Comissão Europeia. Este último aparece amiúde nas televisões a lançar postas de pescada, em várias línguas, sobre a crise nacional e má-na-sê-quê, como se ele não tivesse parte na responsabilidade.

Gostava de saber para onde vai ser transferido o senhor engenheiro-quase-em-fuga. Que tacharrão é que o partido estará a preparar para o moço dar uso ao seu diploma? E os que cá ficam vão ter de sobreviver, não sabendo bem como, porque cada vez ganham menos e cada vez pagam mais impostos. Entretanto, continuam outros, os ligados ao poder e às grandes empresas ligadas ao poder, a nem sequer sentir que há crise. Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é profundamente vergonhoso.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

Castelo novo?


           
(Imagem magnífica captada pelo PEDRO CARPETUDO e que eu roubei já não sei de onde - Não lhe digam!)

Pois o nosso castelo tem andado mesmo nas bocas do mundo nos últimos tempos. Quer por causa de uma certa Torre do Relógio que – dizem – ia desaparecer no dia 30, quer por ter ganho forma colorida depois do sol-pôr. Está um mimo. Parafraseando um slogan que já tem uns anos: “Montemor já merecia um castelo assim”. Agora… falta o resto, isto é, uma intervenção urgente para que a iluminação continue a fazer sentido.

Quando a minha fofa viu o castelo iluminado pensou que a colina mais alta do povoado tinha sido invadida por marcianos. Tive de lá ir com ela, mesmo juntinho às muralhas, para ela poder descansar o espírito. Eram apenas holofotes apontados estrategicamente às velhas muralhas. Nada de homenzinhos verdes, com três antenas ou um olho no meio da testa. Ela pareceu-me desiludida.



domingo, 31 de outubro de 2010

Das qualidades terapêuticas da leitura



 ...e o mistério que envolveu a Torre do Relógio nestas últimas semanas já foi, decerto, desvendado por aqueles que leram a primeira história dos Outros Contos de Vila Nova. E o alívio instalou-se, finalmente, nos espíritos mais desassossegados.
Obrigado aos que estiveram presentes ontem, no Auditório da Biblioteca Almeida Faria, em Montemor-o-Novo. Obrigado também a todos os que se associaram ao evento mesmo sem estarem presentes. Sei que nem sempre podemos estar onde queremos.
Não me cansarei de agradecer à precisosa equipa de amigos pessoais e amigos da Editorial Tágide que transformaram aquela tarde de chuva forte num momento único de manifestações genuínas de amizade e afecto. É o que é literatura - um catalisador de paixões.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vem aí o coiso!



Pronto.
Até dia 30 não falarei, não escreverei, não publicarei seja o que for sobre o coiso (dizer, escrever, visualizar a palavra... dá azar) que está para chegar. Mas, no próximo Sábado, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal, aqui em Vila Nova, podemos trocar uma ideias sobre o assunto. Obrigado a todos pelo apoio e pela divulgação que têm feito dos OUTROS CONTOS DE VILA NOVA. Eles já não são meus. São de quem os apanhar.

sábado, 23 de outubro de 2010

O beijo


"(...)" D. Maria Júlia Benevides, candidata a viúva desde as 10 da manhã, levantou os olhos do terço, que rezava com fervor permanente, não se sabe se a pedir pela alma do marido, se a agradecer alguma graça concedida, olhou e viu aquilo que já esperava: uma fila de mulheres de várias idades e tamanhos que seguiam lentamente, com os filhos pelas mãos, até à urna onde jazia o aparente defunto. E, enquanto cada uma ia, à vez, espreitando a face de Januário, numa despedida derradeira, este reparou que todas tinham olhos de choro, embora ali mantivessem a compostura exigida. Os filhos e as filhas, também de vários tamanhos e idades, seguiam em silêncio, uns distraídos, outras nervosas, quase todos espantados com as velas, os véus, os cheiros, as flores e… a urna de mogno onde Januário Benevides, ouvindo e percebendo tudo o que estava a acontecer, se sentia cada vez mais impotente para exibir ao mundo a sua verdadeira condição."(...)"

O BEIJO, in Outros Contos de Vila Nova (Editorial Tágide, 2010)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Gabinete de Crise reunido de emergência na Câmara de Vila Nova



"(...)" Quando o grupo liderado pelo intrépido Baltazar entrou, com passo decidido, no Largo dos Paços do Concelho, só aos empurrões se conseguia penetrar naquele tecido humano, apertado e consistente, que enchia o espaço àquela hora da manhã. Afinal, não tinha sido ele o único a dar pela falta do monumento. Mais de mil pessoas. Mil não. Duas mil. Mais de duas mil pessoas ali amontoadas, encostadas à sua irritação e impaciência, prestes a exigirem em alta voz e em coro, à boa maneira das manifestações de outrora, a presença do presidente na varanda central do salão nobre. Entretanto (...) as conversas cruzavam-se fortes, nervosas de ansiedade, à espera de uma palavra de Duarte Calabás, presidente eleito pela terceira vez e candidato a um quarto e último mandato e que tinha agora o problema mais grave de todos os problemas graves de todos os seus anos de mandato à frente da autarquia vilanovense.
Trancado no salão nobre, transformado em gabinete de crise, o experiente autarca manifestava, quer pelos traços histriónicos, quer pela voz trémula, uma apoquentação nunca antes vista. Nem quando estivera a meia dúzia de votos de perder o seu lugar para o Bastos Xavier, candidato do maior partido da oposição. "(...)"

A TROCA, in Outros Contos de Vila Nova (Editorial Tágide, 2010)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Vingança de Severiano Valverde


"(...)" No dia do lançamento da sua obra mais recente no auditório da Biblioteca de Vila Nova, a abarrotar de gente ― pois Severiano tinha muitos amigos e já tinha soado entre eles que este livro era um bocado estranho ―, mal sabia ele o que o destino lhe tinha preparado. Iniciada a cerimónia, elogiado o autor, a editora e o livro e feitos os agradecimentos, seguindo religiosamente os trâmites do protocolo, Severiano disponibilizou-se para a sessão de autógrafos.
― Não! ― ouviu-se uma voz.
― Não? ― perguntou o escritor.
― Nós não vamos querer o seu autógrafo enquanto não soubermos o que está dentro do seu livro.
― Mas para isso têm de ler as histórias… ― lançou Severiano, pensando que os desarmava.
― É isso mesmo que vamos fazer.
E toda a gente, num profundo silêncio, perante o atónito escritor e a preocupada editora, começou a ler as histórias, cada um à sua velocidade, ora esboçando sorrisos, ora esgares de irritação ou surpresa ou mesmo exclamações de desespero e fúria incontida. Palavra a palavra, linha a linha, as histórias que compunham o pequeno volume foram lidas, dissecadas, assimiladas, experimentadas mentalmente para ver se eram verosímeis. O escritor, em estado meio de espera, meio de alerta, trocava olhares com a doutora que se encontrava sentada na outra extremidade da mesa de honra "(...)".

A VINGANÇA DE SEVERIANO VALVERDE, in Outros Contos de Vila Nova (Ed. Tágide, 2010)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Águas Mil


"(...) Maria Benedita susteve a respiração. Não acreditava no que estava acontecer-lhe. Nem um nem outro conseguiram pronunciar palavra. Nem uma sílaba. Por mais sem sentido que fosse.

O vento, transformado em brisa, refrescava-lhes, aos poucos, os corações. As nuvens negras a ameaçar trovoada começavam a dissipar-se. O rio, como que por milagre, sossegou e as rochas duras transformaram-se em areia. Os troncos arrastados pela corrente, que pareciam braços a pedir auxílio, quiseram ser pássaros e sobrevoaram as águas sarapintadas pela espuma dos dias. Dos dias de sofrimento. Do passado. Do que, afinal, ainda se pode mudar.

As lágrimas amargas ficaram rios de mel com laranjas e as veias daqueles dois, até então empedernidas, transformaram-se, elas sim, em caudais violentos de sangue vivo, numa enxurrada de liberdade, como se tivesse chovido mil anos sem parar. Até o rebanho estava silencioso, à espera, guardado pelo cão, em expectativa. Foi ela que recomeçou, em aflição, contrariada por quebrar aquele sossego tão inesperado:
― Simplício! Onde é que arranjaste dinheiro para um presente tão caro? (...)"

ÁGUAS MIL, in Outros Contos de Vila Nova (Ed. Tágide, 2010)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O SINAL


‎"O que Zulmira não adivinhava, não podia adivinhar, era que nesse mesmo dia, já perto do lusco-fusco, iria entregar à polícia política o seu Tomé, o homem com quem tinha casado havia mais de um ano, a quem, diante do padre e de Deus, havia jurado nunca trair, fossem quais fossem as circunstâncias da vida. O seu Tomé, pai da Margarida, aquele pedaço de céu prestes a ficar sem os seus carinhos. Se Zulmira soubesse o que estava para acontecer, teria preferido que aquele dia nunca tivesse amanhecido.(...)"

O SINAL, in Outros Contos de Vila Nova (Editorial Tágide, 2010)





terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Troca

"(...) Foi só depois do nascer daquele dia terrível, ao sair para a rua a dar início a mais uma jornada de trabalho, que Baltazar Mendes olhou em direcção ao castelo e não viu o que costumava ver. Primeiro, não reparou na sua ausência, tal era a força com que a sua presença lhe estava entranhada. Mas depois, ao segundo olhar, percebeu que havia ali coisa que não era habitual.

Pois é esta a verdade que aqui lhes trago: Vila Nova acordou em grande sobressalto naquela manhã. Ninguém dera por nada. Não se ouvira qualquer estrondo nem barulho de motores ou de vozes. Nem o ar a deslocar-se, nem explosões, nem nada. Nada que fizesse despertar o bom povo do sono justo que o agarrou ao leito naquela noite, aparentemente santa. Aliás, como veio a dizer mais tarde Baltazar Mendes, já no Largo dos Paços do Concelho, tinha sido uma noite demasiado calma. Pois foi ele que deu o alarme.

Enquanto fechava a porta de casa, na Rua de Avis, para se dirigir para a loja de ferragens, onde trabalhava havia perto de trinta e cinco anos, olhou sem pensar, como sempre olhava, para aquele horizonte estreito entalado entre os prédios da sua rua e, lá mais à frente, pelas casas antigas da Rua das Pedras Negras. E, quando olhou, estranhou o que viu. Ou melhor, estranhou o que não viu. Primeiro não percebeu.

Depois semicerrou os olhos, não se tivesse entreposto alguma névoa entre a ponta do seu nariz e o fundo do céu. Foi aí que percebeu. Soltou um grito de aflição e impotência: a Torre do Relógio, que coroava a Rua do Quebra-Costas, esta a desaguar a custo na avenida principal do castelo, a torre que figurava no brasão de Vila Nova e nos emblemas da maioria das associações da vila, a Torre do Relógio de Vila Nova tinha desaparecido com as quinze toneladas de pedra que, durante séculos, lhe deram forma. Desaparecido?, perguntarão. Desaparecido, responderei. É que não há outro verbo no particípio passado que melhor descreva a sua ausência ou que satisfaça a maldade inata do perguntador mais perverso.(...)"

Excerto de "A Troca", in Outros Contos de Vila Nova (Editorial Tágide, Lisboa, 2010)



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