quinta-feira, 3 de março de 2011

A Torre


Escrevi uma história chamada “A Troca”, para incluir nos Outros Contos de Vila Nova, com o objectivo puro e simples de inventar uma situação inverosímil e, ao mesmo tempo, divertida, que nos pusesse a pensar sobre os símbolos da nossa identidade colectiva, que contribuem para uma unicidade ainda que entre seres diferentes. Ao mesmo tempo, foi minha intenção mostrar que as soluções mais eficazes para os problemas graves que põem em causa a nossa existência comunitária poderão vir de espíritos esclarecidos que põem a um canto os engravatados e os teóricos do regime. O desaparecimento da Torre do Relógio de uma localidade de província chamada Vila Nova causou, na ficção e durante a promoção do livro, algum sururu entre os habitantes que, aflitos, não queriam imaginar como seria a sua vila sem a Torre, sem o seu ponto de referência. Pois hoje, alguns dias depois do dia 22 de Fevereiro, essa metáfora tornou-se mais profunda e alcançou um significado que, na altura da produção da história, eu não poderia imaginar. Porque há torres únicas, insubstituíveis, que, ao desaparecerem para sempre do nosso horizonte físico, nos deixam perdidos, naufragados, sem bússola, sem pontos cardeais. E agora, João Luís?

Para o nosso pai, seremos sempre as eternas crianças, que necessitam de conselhos e de protecção. Para o nosso pai, será sempre importante, mesmo imprescindível, um aviso, uma sugestão, um conselho. Mesmo que já tenhamos a barba branca e o cabelo a rarear. Para o nosso pai, o nosso bem-estar é o seu bem-estar e a nossa felicidade é a sua felicidade. Mesmo que já tenhamos filhos e que estejamos sujeitos a ser avós como ele. Não interessa a nossa idade. Ser-se pai é um estatuto, um vício, uma paixão temerosa. Não sei como é o vosso pai. Mas o meu era assim. Todas as decisões marcantes da minha vida tiveram sempre, se não o seu aval, pelo menos o seu ponto de vista, discreto mas firme.

No dia 30 de Outubro passado, o meu Pai esteve comigo na cerimónia de apresentação dos “Outros Contos…”. Foi o momento certo. Foi uma altura única. Dias depois, teria sido impossível a sua presença. Não acredito em deuses, nem nos astros, nem em bruxas, nem em fadas, mas acredito na conjugação de factores. Se o dia 22 de Fevereiro, dia do seu desaparecimento, foi, até agora, o dia mais triste da minha vida, o dia 30 de Outubro, revelou-se, por contraste, um dos mais felizes.

A resignação com que aceitou a doença, a lucidez com que se despediu da vida, os planos que traçou horas antes da partida revelaram uma clarividência de espírito e uma grandeza rara que eu nunca saberei ter. Tal como o Zé Sebastião, o funcionário da Câmara de Vila Nova que solucionou o problema do desaparecimento da Torre, também ele sabia ver muito primeiro que outros, cheios de teorias e diplomas. Mesmo fragilizado, foi sempre a minha Torre, o meu Refúgio, o meu Farol. E vai continuar a sê-lo até eu, um dia, me juntar a ele. Obrigado Pai por teres sido meu pai.

E hoje, caros leitores, não é que vocês não mereçam, mas não tenho mais palavras para escrever. Apenas um obrigado a todos os que, directa ou indirectamente, manifestaram o seu pesar e me abraçaram emocionados e acarinharam a minha mãe, uma mulher-coragem que Brecht não desdenharia conhecer.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011



Criou-se uma campanha de solidariedade para recolha fundos de apoio ao assassino confesso do cronista social Carlos Castro. Serei incapaz de doar um cêntimo. Celebrou-se em Nova Iorque uma missa de sufrágio pela alma da vítima. Celebrou-se em Cantanhede uma missa de apoio a Renato Seabra. Fiquei curioso em relação a quem Deus irá escutar. Do espectáculo degradante e desnecessário que foi o lançamento das cinzas de Castro num respiradouro do metro de Nova Iorque, desse já ninguém nos livra. A poesia do gesto transformou-se num acto grotesco e insensível. Os meios de comunicação social conseguiram envenenar a opinião pública e Seabra é quase inocente antes do julgamento. De Castro, mostrou-se os amigos na missa de 30.º dia e não se ouviu falar mais, nem da família, que deve estar a passar por momentos de enorme sofrimento. Será isto a efemeridade da fama de que tantos actores falam mas da qual não abdicam? Ou Castro era de tal forma malquisto que merece mergulhar para sempre no fogo eterno do esquecimento?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

R.I.P.


Houve lágrimas, porque um tal Liedson abandonou o Sporting e foi jogar para o Brasil. Também eu me fartei de chorar por causa desse rapaz, exactamente porque eu e 95 por cento dos portugueses teríamos de trabalhar duas vidas inteiras para ganhar o que ele vai ganhar em dois anos. Há também um tal Mourinho, que comprou uma casa por um milhão e meio de euros, um certo Ronaldo, que dispensou 140 mil euros para umas bebidas com os amigos e o pseudo-actor Angélico Vieira que gastou 170 mil euros no carrinho dos seus sonhos. Tudo isto seria normal se não estivéssemos a viver a pior crise desde a implantação da República. Por isso, tudo isto me parece escandalosamente pornográfico porque há, sobretudo, uma enorme falta de respeito por quem trabalha e não consegue passar da cepa cada vez mais torta.

Os portugueses normais, que não são amigos dos políticos nem são futebolistas, estrelas de Hollywood ou treinadores-maravilha, ganham menos, pagam mais pela sua sobrevivência e terão de continuar a cumprir os seus compromissos. Os doentes, a viverem dessa esmola que se chama reforma, têm de desistir das consultas médicas porque são eles quem paga as despesas de deslocações aos hospitais e centros de saúde. Quarenta mil professores serão despedidos, devido à reestruturação do ensino básico e secundário. Comerciantes continuam a fechar as portas das suas lojas e restaurantes porque não aguentam o peso dos impostos. Os direitos dos cidadãos, consignados na Constituição da República Portuguesa, são vilipendiados todos os dias.

Ah! Mas somos um país moderno! Temos Magalhães, temos abortos autorizados, consumo de droga liberalizado e casamento entre cidadãos do mesmo sexo. Nada contra. Mas, antes destas, eram urgentes terem sido tomadas decisões em campos menos fracturantes e mais úteis à sociedade. Que se rasgue, pois, a Constituição. E que se enalteçam essas imagens, essas sim, verdadeiramente fracturantes, de pessoas chamadas Mourinhos, C. Ronaldos e outros assim.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

Autodefé




Temos de ensinar os alunos a escrever palavras que, se fossem escritas há quarenta anos, davam origem a uma orgia de reguadas até à exaustão da professora. Irónico, não acham? Que se rasgue, pois, a Cartilha de João de Deus, as gramáticas e as normas que fizeram da nossa literatura uma das mais elaboradas e belas do mundo. Que se rasgue, pois, Eça e Camilo. Que se queime Camões e Pessoa, José Luís Peixoto e Lídia Jorge. Malditos sejam pela sua escrita, tão cheia de erros ortográficos e impossível de entender pelos pobres de espírito e por outros vendilhões do templo.






domingo, 30 de janeiro de 2011



Não entendo por que se celebram missas e se fazem peditórios públicos para apoiar a defesa (e, quem sabe, se para pedir a absolvição) do assassino confesso do cronista social Carlos Castro. Alguém se preocupou com a família do assassinado? Quem quer (sabe) explicar-me esta inversão de valores?

sábado, 29 de janeiro de 2011


Que(m) faz correr Carlos Silvino?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Duplicidades



Como é que um homem chamado Joseph Ratzinger, e que assume o nick de Bento XVI, pede aos jovens para não criarem perfis falsos na Net?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições, hoje! Para quê? Para quem?



(Foto roubada descaradamente ao Manuel Roque)

Não percebo nada de política, mas tenho a impressão que os cabeças de lista às próximas autárquicas aqui em Montemor vão começar a fazer visitas ao pessoal das associações culturais e humanitárias uns dois ou três meses antes das eleições de Outubro de 2013. É o costume. Como se as associações começassem a existir exactamente nessas alturas. Em tempos idos, em período de campanha eleitoral, o Coral de São Domingos foi visitado por vários grupos de políticos, todos bué de interessados nos seus trabalhos. Eu não me aguentei e tive de perguntar a alguns desses interessados pelos nossos problemas a quantos concertos do coro já tinham assistido. Uma boa parte deles ainda não tinha assistido a nenhum. Mas ficaram a saber que o Coral de São Domingos fazia (e faz) vários concertos de música coral por ano na cidade. Imaginem a ousadia.
Eu, se pensasse seriamente em substituir Carlos Pinto de Sá, começava JÁ a trabalhar. Quer fosse do PCP, do PS, do PSD ou do CDS. Digo eu.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Vem aí o acordo horto-gráfico. O projecto acabou por ver a luz do dia sem se saber porquê. De país colonizador e que imprimiu regras (religiosas, sociais, linguísticas, administrativas) aos povos de África e do Brasil (se bem, se mal, isso agora não vem ao caso), Portugal passa a país colonizado que vai ter de aceitar um acordo político, mascarado com as cores da fraternidade e a fingir um intercâmbio em nome sei lá do quê. Os Norte-americanos e os Britânicos nunca se incomodaram com as diferentes formas de escrever (e de falar) dos seus cidadãos. Os Espanhóis e os países da América Latina nem discutem essas diferenças. Só um país chamado Portugal é que teve a ideia peregrina de pôr o pessoal a escrever como os brasileiros e os africanos. Mais surreal do que isto foi a chegada de uns tanques de guerra para proteger aqueles tipos da Cimeira da Nato. É que essas armas de defesa só chegaram muito depois daquela cambada ter regressado a casa.
Devo confessar, desde já, que me vai ser muito doloroso e difícil abandonar a grafia do meu português e adoptar a forma de escrever de um tipo de português que, para mim, não passará de uma excepção a todas e quaisquer regras adoptadas há várias décadas. Vai ser o Inferno para quem está habituado ao português de Portugal. As televisões começaram a fazer passar no rodapé alguns títulos com a nova grafia e eu até fiquei agoniado. A nossa língua começou já a ser um objecto de violência para a qual não há adjectivos possíveis e suficientemente fortes que a classifiquem. Enquanto professor, ensinarei de acordo com a legislação. Enquanto cidadão que escreve por aí, não vou conseguir abdicar tão depressa da verdadeira língua portuguesa.
Por enquanto, é um choque. É como se me obrigassem, a partir de agora, a conduzir pela esquerda ou a atropelar velhinhas de andarilho nas passadeiras. É um sentimento de perda e uma vontade de voltar ao útero materno. Mas, como diz o outro, este é um problema menor em relação a outros bem maiores. Um deles é, por exemplo, a fome que muitas crianças começaram a sentir diariamente, problema que algumas escolas tentam ajudar a ultrapassar servindo refeições durante as férias. Pensando bem, para uma criança com fome é indiferente se ela é tratada pelos políticos como um sujeito exce(p)cional, um obje(c)to desprezível ou um mero complemento indire(c)to a quem não se dá condições para ser feliz.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Oh, abre!!!!

Somos um país de gente preocupada. Os dias arrastam-se atrás uns dos outros, sendo o seguinte mais preocupante que o anterior. A nação valente e imortal notou, tantos anos depois, que é mais mortal do que um pêro podre e que, valente, só o é nos versos de A Portuguesa, inventados por Henrique Lopes de Mendonça para a marcha patriótica de Alfredo Keil. Os heróis do mar, manietados por uma Europa ditadora, não passam agora de escravos de uns políticos manhosos que transformaram o país num pântano onde navegam com à-vontade os corruptos, os piratas e outros criminosos de fato e gravata.

Muitos portugueses querem saber como vão aguentar-se durante o ano que agora começa; até quando têm garantia de emprego; até quando poderão honrar os seus compromissos; o que irão pôr na mesa depois de pagas as contas do mês. Outros viram as atenções para os candidatos à Presidência da República e reparam que o que ali está não são candidatos à Presidência da República. São candidatos a mais um mandato de neutralidade oca e inócua. Ao pé destes senhores, a rainha de Inglaterra é uma verdadeira Hitler de saias (e de coroa de diamantes). Para que serve um Presidente da República se não pode emitir opiniões? Pode vetar leis malucas, dir-me-ão. E então? Elas voltam ao Parlamento e são aprovadas na mesma. Pode demitir um Governo incompetente, quando as condições o exigirem, poderá insistir o meu leitor. E então? Não houve condições para a demissão deste Governo? Houve. Alguém o demitiu? Não me lembro. Pode fazer Presidências Abertas, com a comunicação social atrás, para dar visibilidade aos problemas do país, tentarão ainda convencer-me. E então? De que serviram as presidências abertas de Cavaco Silva? Só lhe foi mostrada a parte menos má do país…

Vão por mim. O país não precisa de um presidente da república, quer venha do PSD, quer venha de qualquer outro partido. A Presidência da República é, apenas e só, uma fonte de gastos desnecessários do erário público. O que nós precisamos é de um Governo coerente, consciente e, sobretudo, de um primeiro-ministro que viva no mesmo país que nós. Eu repito: de um primeiro-ministro que viva no mesmo país que nós. Enquanto isso não acontece, continuaremos a ser uma nação de gente preocupada e cada vez mais infeliz e deprimida. Um país onde uns comem as lagostas e os outros chupam as cascas. Mas com as contas à moda do Porto, pois claro. Como diz um puto cá de casa, contrariando as boas maneiras da fofa: “Oh, abre!”



domingo, 9 de janeiro de 2011

"If..." by Rui Duarte Quipelingue


Se... o Prof. Cavaco tivesse investido NESTE banco, não estaria metido em  tantos problemas

sábado, 25 de dezembro de 2010

Porque é Desnatal...


Apesar desta falta de ar que aflige o país, o chefe do Governo afirmou, mais do que uma vez, que não precisaríamos de pedir ajuda a ninguém. Regressámos à tristemente célebre expressão com que Salazar nos isolou do resto do mundo. Depois de, qual doutor Fausto calculista e interesseiro, termos vendido a alma à Europa, depois da cedência da nossa personalidade enquanto nação independente, a troco de uns milhões de euros para subsídios para a construção de piscinas e má-na-sê-quê por esse país afora, agora que nos devíamos candidatar a apoios externos, queremos ficar orgulhosamente sós. Eu não sei o que é que esta gente do governo anda a comer. Mas que lhe provoca graves incómodos cerebrais, lá isso não há dúvida.

O colapso definitivo dar-se-á quando se demitirem alguns elementos das estruturas do Estado, quer civis, quer militares, e que ainda permitem que o país vá andando, deixando esta ruína a navegar à bolina. E, pelas minhas contas, não há-de faltar muito: os juízes estão descontentes e frustrados com a justiça que são obrigados a administrar; os militares estão a viver dificuldades em termos de salários e de promoções; os agentes da autoridade sentem cada vez menos autoridade (prendem os criminosos, que são libertados pouco tempo depois); a máquina do partido do governo anda com uns pedregulhos na engrenagem (há socialistas que já quebraram o verniz e começaram a pôr a boca no trombone). Para além disto, os professores sentem-se todos os dias obrigados a cumprirem normativos que não fazem o mínimo sentido e que ferem de morte a sua prática pedagógica; os cursos superiores ficaram mais curtos e muitos licenciados saem das universidades sem saberem ler nem escrever e sem competência para coisa nenhuma. Mas não é grave: não há emprego para poderem exercitar alegremente essas incapacidades.
Contudo, quem nos governa continua a gerir esta coisa chamada Portugal com alguma coerência. Pedir ajuda para quê? Era dar muito nas vistas. Um país que construiu 10 estádios para o Euro 2004, que quer montar um aeroporto de raiz, como se fosse um simples jogo de Lego, primeiro não, mas depois sim, na margem Sul do confuso Tejo, um país que teimou até ao último momento em construir auto-estradas e caminhos-de-ferro em direcção a Espanha e que se candidatou com os vizinhos à organização do Mundial de 2018, não precisa, de facto, de ajuda. Os responsáveis por estas ideias megalómanas é que precisam. De ajuda psiquiátrica urgente.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Noite de Natal


 




Os Cantares começaram com chuva a cântaros mas, enquanto os três coros e os seus acompanhantes subiam a Rua Nova, o São Pedro fechou a torneira e a Noite de Natal aconteceu. Acabámos a noite na Igreja da Misericórdia, com um recital de canções e poesia. Destaque para o poema "Pequeno Prelúdio para uma Cantata de Natal", escrito por Carlos Cebola para esta iniciativa.
Em nome do Coral de São Domingos, agradeço ao Grupo "As Escouralenses" e ao Grupo "Canções da Segunda Juventude" a preciosa colaboração nesta 9.ª edição dos Cantares ao Menino. Para a Câmara Municipal e para a Santa Casa da Misericórdia vai também o nosso aplauso pelo seu apoio, não só nesta altura, mas durante todo(s) o(s) ano(s). Para as dezenas de pessoas que nos acompanharam ao longo da noite, aqui fica o nosso abraço e votos de Feliz Natal.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cantares ao Menino


Coral de São Domingos
Grupo Coral "As Escouralenses"
Grupo Coral dos Estudos Gerais

Esperamos po si!

Depois dos Cantares... chocolate quente na sede do Coral de São Domingos (pagando, é claro!)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Menos um...


... a incomodar o regime.

Carlos Pinto Coelho morreu hoje.
Ficámos ainda mais empobrecidos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

This is the winter of our discontent (W. Shakespeare, Richard III)

Este é o Inverno do nosso descontentamento. A frase não é minha. Foi escrita há quatrocentos anos por um senhor muito à frente do seu tempo. Não sabia ele – como poderia sabê-lo? – que a proposição se encaixaria, muito mais tarde, na perfeição para descrever os tristes dias que começámos a viver. Gostaria, se fosse possível, por este e por outros motivos, de cumprimentar esse génio. Aproveitava para lhe fazer uma lista de razões pelas quais este Inverno se vai tornar tão longo que se prepara para substituir as primaveras e os verões dos anos que estão para chegar.

E dizia-lhe: devido a uma terrível falta de visão estratégica por parte dos políticos, e à sua enormérrima incapacidade para servir o país, as pessoas foram penalizadas nos seus salários; as famílias deixaram de receber os abonos dos filhos; os trabalhadores rurais e fabris reformados viram a sua mísera reforma diminuir; instituições de solidariedade viram cortadas as ajudas; escolas privadas fecham por falta de apoios; hospitais e escolas necessitam de obras; há cidades espalhadas por aí com os centros históricos a mergulharem na ruína por não haver dinheiro para as necessárias reabilitações; o gás voltou a aumentar; e o pão, e o combustível e todos os bens essenciais para a sobrevivência ficaram mais caros com um novo aumento do IVA; os medicamentos aumentaram; tudo aumenta enquanto os salários diminuem. Tudo se complica. Todos os dias há anúncios de novas medidas de austeridade. Mas não para todos. É um país com duas nações, como diria Disraeli, primeiro-ministro da velha e manhosa rainha Vitória, dona, no seu tempo, de um Império Britânico, o maior do planeta, onde o Sol nunca e punha. Há duas nações, sem dúvida: a nação dos ricos, pequena mas desafogada, e a nação dos pobres, enorme e afogada.

Mas é assim: os portugueses da nação grande estão, na sua maioria, a ficar estrangulados e sem margem de manobra para gerir as suas economias domésticas. Tudo isto porque os da nação pequena (mas desafogada) não se apercebem, nem querem saber, das dificuldades que muitos compatriotas seus estão a viver. E esses portugueses, todos sabemos quem são. Fico-me por aqui. Estou cansado de chamar nomes a essa cambada de oportunistas e incompetentes. Afinal, caro Shakespeare, este não é o Inverno do nosso descontentamento. É o país da nossa mais profunda revolta, fechada a sete chaves por medo, comodismo ou hipoteca.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Banda de Lavre, Laginha, Palacino & Gershwin, Inc.



Há uns anos (30?) vi e ouvi, na televisão, Leonard Bernstein interpretar a famosa Rhapsody in Blue, uma composição musical do americano George Gershwin (1898-1937) para piano e banda de jazz, escrita em 1924. Mais tarde, comprei a partitura e resolvi estudar umas partes por outras. Fiquei hipnotizado pelos novos sons que aquele texto musical me obrigava a retirar do piano. A extrema dificuldade de execução de muitas passagens (aquilo não é para amadores) levou-me a pô-la de parte. Recentemente, graças à Internet e a essa maravilha da bisbilhotice global chamada Youtube, vi e ouvi, enquanto ia lendo a partitura, Gershwin a interpretar a sua própria composição, considerada uma das peças de concerto mais populares de todos os tempos. Pensei, ainda de ouvidos arregalados: “Não é possível repetir este momento”. E fiquei-me com esta.

Acabei de chegar a casa, vindo do Cine-teatro Curvo Semedo, depois de ouvir a Banda de Lavre a acompanhar Mário Laginha ao piano nesta peça magistral. Confesso que, antes do início do concerto, enquanto me sentava no meu lugar, pensei com alguma malícia: “Sempre quero ver como vão os músicos resolver este problema.”
Mas resolveram. Magistralmente. Há, pois, momentos que se repetem. Com o maestro Fernando Palacino no seu melhor. Parabéns (mais uma vez).

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desafios... únicos!


Sábado, 11 de Dezembro, 21h30
Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo

Gershwin, a Utopia da Vanguarda e Outras Formas de Ouvir...

com
Mário Laginha, Maria João
Banda Simão da Veiga da Casa do Povo de Lavre 

(Ciclo de Outono - Câmara Municipal de Montemor-o-Novo)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A saque!


Depois de alguns anos de apatia, numa linha de comportamento assim do tipo “bate-me que eu deixo… e gosto”, o povinho acordou, ao verificar que estamos a chegar ao fundo, e desatou a chorar a sua preocupação em tudo quanto é sítio. Agora é que ele percebeu MESMO que os cortes, os apertos de cinto e a perda de regalias só o vão atingir a ele. Os que, a custo, ajudam na construção do país, com a sua força de trabalho, físico e intelectual, são os mais penalizados. Nunca se tinha imaginado que este paraíso à beira-mar plantado viesse a viver dias de verdadeiro inferno. Quem nos governa já não sabe o que fazer. Mas soube mentir – sim MENTIR. Há um ano, quando os jornalistas lhes perguntavam o que iria ser de nós, alguns políticos tiveram o descaramento de afirmar que a crise já tinha passado. E ainda ela não tinha chegado verdadeiramente.

Sabemos que a conjuntura global está uma miséria. Os países europeus da zona euro andam ao tio-ao-tio (a Alemanha está a safar-se, o que se torna, sob uma certa perspectiva, preocupante), mas são os políticos que devem ser responsabilizados pela situação. Não souberam, não perceberam, ou não quiseram perceber, o que aí vinha, não foram claros com o povo que os elegeu e acabaram por transformar o país num pântano de onde até os mosquitos se preparam para emigrar. Eles que não culpem apenas a conjuntura: foram anos e anos de bela vida, de enormes compadrios e comadrios, com gente do PSD e do PS bem amanhada com cargos e benesses, empregos para amigos e amigos de amigos, até não poderem mais. A isto acrescente-se as viagens, os banquetes, as visitas e uma trupe de gente a viajar, a comer e a luxar à sua e à minha custa. E é isto que custa. E é isto que eu não aceito.

Distraídos crónicos...


Contador de visitas

Contador de visitas
Hospedagem gratis Hospedagem gratis

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Montemor-o-Novo, Alto Alentejo, Portugal
Powered By Blogger