sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando o António me entrevistou...

 







Entrevista a João Luís Nabo

Entrevista no âmbito de um trabalho de Português, realizado por António Dionísio, aluno da Prof. Marta Artilheiro (8.º F)

João Luís Nabo nasceu em Montemor-o-Novo em 1960. É professor de Inglês e Alemão, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Clássica de Lisboa e mestre em Criações Literárias Contemporâneas, especialista em Literatura Norte-Americana Contemporânea. Tem ampla formação musical, é compositor e desenvolveu muitas outras atividades na área, como professor de piano. É fundador do grupo Coral de São Domingos de Montemor o-Novo onde também é maestro. Foi diretor do jornal Folha de Montemor, entre 1989 e 2003, e é escritor, publicou livros de crónicas, de contos e recentemente um romance. Diz que o segundo está a caminho, provavelmente para nos trazer mais histórias de Vila Nova.

Foi para falar de literatura e de ensino que me recebeu na sua casa, para esta entrevista.

“Qualquer situação, por mais banal que seja, é importante para escrever uma história.”

 

 

 


P - A primeira pergunta que gostaria de lhe fazer é qual foi a sua inspiração para começar a escrever livros?

R - Os livros são histórias. Não sei se tiveste a oportunidade de ler algum dos meus livros. Há um livro com contos muito pequeninos, que é o Segredos de Vila Nova, que tem contos que vocês podem ler porque são histórias minimamente interessantes e vos ajudam a conhecer também um bocadinho de Montemor, porque, nos meus livros, Vila Nova é o nome falso de Montemor-o-Novo. Para que eu possa escrever, por vezes, algumas coisas menos consensuais e, às vezes, mais polémicas, eu não posso falar em Montemor, então Vila Nova passou a ser o universo onde decorrem as minhas histórias.

Como é que a gente começa a escrever uma história? Qualquer situação, por mais banal que seja, é importante para escrever uma história. Eu posso ir a passear por uma rua e vejo uma folha a cair de uma árvore e, daqui a algum tempo, posso lembrar-me daquele pequeno acontecimento que é aparentemente natural, uma folha a cair, e ocorrer-me uma história para escrever, com um princípio, com uma mensagem, com uma narrativa clara e minimamente interessante. Por vezes, nós temos uma ideia para escrever uma história, com uma mensagem central. Eu quis escrever uma história, por exemplo, onde pudesse inserir a polícia política, a censura, o Estado Novo, todo um ambiente de claustrofobia e de medo que as pessoas sentiam nessa altura. Esta foi a ideia inicial. Depois houve uma segunda ideia, que foi, nesta história sobre o Estado Novo, sobre as mudanças sociais, aqui em Vila Nova, que eu tinha de pôr dois amigos, muitos amigos, desde a escola primária, que por um motivo muito forte, se vão separar para sempre. E depois, por um motivo ainda mais forte, vão voltar a unir-se em Vila Nova.

É uma história que nasce destas ideias. Falar de um contexto histórico, Vila Nova, portanto Montemor, nos anos 50, 60, com personagens reais, misturadas com personagens de ficção, e depois criar uma densidade narrativa, uma relação entre esses dois amigos, muito amigos, que se sentaram juntos nos bancos da escola primária, que depois se separaram por um motivo importante - não posso fazer spoiler - que os fez, de certa forma, esquecer o passado. Se leres essa história percebes esta estrutura que eu estou aqui a descrever. Portanto, pode ser um acontecimento banal, uma coisa simples, um miúdo a andar de bicicleta, uma senhora a cair na rua, um senhor de chapéu a cumprimentar uma senhora que vai com uma bengala e a pergunta é sempre porquê, porque é que eles se estão a cumprimentar? Qualquer coisa que tu possas ver aí, dá uma história.

P - O que acha que se podia fazer para as pessoas começarem a ler mais?

R - Pois as pessoas estão cada vez a ler menos devido às redes sociais, ao telemóvel, a isso tudo. Mas todas as pessoas escrevem, miúdos de 6 anos até a pessoas com  90 e tal. Todas. Todos os dias. Milhares de textos, milhares de palavras. Só que escreve-se mal. Porque o que interessa é fazer passar a comunicação, passar a mensagem. Desde que se perceba, não interessa a pontuação, não interessa o sujeito, nem o predicado, nem o verbo, nem o complemento direto, nem o público. Não interessa nada. O que interessa é passar a mensagem, o que não é necessariamente mau. A comunicação é fundamental para a nossa vida, sem comunicação nós não existíamos. Agora, o que é que se pode fazer para... sabes que isto é uma conversa que os professores já começaram a ter há muito tempo. E sobretudo os professores de português. Eu não sou professor de português, mas estou por dentro, mais ou menos, da matéria, e já escrevi um artigo sobre isso. Na minha perspetiva, tudo bem, vamos pôr o Eça de Queiróz porque é de leitura bastante acessível, embora seja grande o livro, Os Maias. Mas por que é que não podemos pôr um Harry Potter? Ou uma personagem de que vocês gostem, que tenha filmes sobre ela, que seja um texto mais juvenil, mais jovial, mais adequado à vossa idade? Porque é que têm de se debruçar profundamente num Frei Luís de Sousa? São das obras mais importantes da nossa literatura, Os Maias, os Lusíadas, Frei Luís de Sousa, Memorial do Convento, Amor de Perdição, não estou a dizer que se anulem esses livros, de maneira nenhuma, mas deviam equilibrar-se essas leituras com leituras mais leves. Porque se vocês lerem coisas mais leves, ficam mais motivados para as menos leves, como é o caso da literatura portuguesa que tem livros muito complexos.

Uma das coisas que me dá uma grande alegria é encontrar um aluno na escola, e ele dizer-me, estou a ler um livro seu. Isso é, de facto, uma coisa que não tem preço, saber que os nossos alunos, não são centenas de alunos, mas alguns, vão à biblioteca ou vão à papelaria, compram o livro e leem coisas minhas. Isso é já, modéstia à parte, um bom princípio. Terem um professor da escola deles a escrever e a publicar, isso pode levá-los a ter curiosidade em ler aquilo que ele escreve. Algo que tem colaborado para isso é o facto de professores de português, meus colegas, me convidarem de vez em quando para ir falar sobre os meus livros às suas turmas. Eu vou, leio uma história ou duas e eles têm sempre essa curiosidade, como é que as histórias aparecem. Essa curiosidade é satisfeita através da leitura de um ou do outro jeito, que eu faço para eles perceberem e depois ponho-os a escrever eles próprios uma pequena história. Dou-lhe umas indicações breves sobre como é a estrutura de uma história, porque há regras que eles têm de perceber e depois começam a escrever a sua própria história. E isso é muito interessante.

P - Tenciona continuar a escrever livros?

R - Claro! Claro que sim. Em princípio este ano será o meu último ano de trabalho. Eu comecei a publicar muito tarde, comecei a publicar aos 40 anos. Foi em 2004, portanto aos 43 anos. Já sou um autor que publicou muito tarde, porque não tinha editora, porque nunca me apeteceu, porque tinha medo de publicar. Até que eu escrevi um primeiro livro, que publiquei nesse ano, e a coisa correu bem, e depois continuei a escrever. E quando tiver mais tempo, obviamente que vou continuar. Estou neste momento a escrever um romance, o meu segundo romance, que está muito lento, está a sair de forma muito lenta, porque é preciso muita coisa, muita investigação e muito trabalho de escrita. Está a ser muito lento. Escrevo uma página, apago meia, escrevo mais três linhas a apago quatro. Não está a ser fácil de desenvolver, mas eu já tinha a ideia, já tinha a tal estrutura, e sei o que quero. Temos a estrutura, o esqueleto, agora é pôr a carne, a pele, os músculos para fazer a figura, e é isso que é o mais difícil. Mas vou terminar este romance que está agendado para ser publicado em 2027 e depois continuarei, pois, claro. Naturalmente que sim. Não sei ainda fazer o quê, os imprevistos literários, mas, enfim, vou continuar a escrever. Então, depois, ninguém me para, não é?

“Tudo isso nos ensina a perceber osmiúdos, a perceber a sociedade onde vivemos, e torna-nos muito mais perspicazes e muito mais disponíveis para os ajudar.”

 

  

 




P - O que é que o fez querer ser professor e o que é que mais gosta de fazer na sua profissão?

R - O que é que me fez ir para esta profissão? Eu, antes de ser professor, comecei por dar explicações. Comecei a ensinar em casa. Ainda estava na universidade. Depois, o curso que eu tirei não foi diretamente para o ensino, era um curso clássico, não havia estágio de ensino, nem mestrado de ensino, não havia nada disso. Nós saíamos com a formação e íamos concorrer para uma escola. E porque decidi concorrer e ser professor? Porque eu sempre gostei de ensinar. Porque acho que a transmissão de conhecimento é fundamental. Pensa, nós sabemos 10 coisas. Eu sei 10 coisas, o teu pai sabe 10 outras coisas, tu sabes outras 10. Se nós juntarmos estas coisas todas, tu ficas a saber 30 coisas, eu outras 30 e o teu pai outras 30. Ensinar é isso. É eu partilhar com os outros aquilo que sei e eles vão partilhando comigo aquilo que sabem. E têm-me ensinado muitíssimo! Na realidade, os alunos ensinam-me mais do que tu imaginas. É verdade, a todos os níveis. A nível comportamental, como é que vocês se sentem numa aula umas vezes mais aborrecidos, umas vezes mais satisfeitos, outras vezes faltam por algum motivo. Tudo isso nos ensina a perceber os miúdos, a perceber a sociedade onde vivemos, e torna-nos muito mais perspicazes e muito mais disponíveis para os ajudar. Com alguma idade e com alguma experiência, o professor nota logo se houve chatice em casa, se o aluno se deitou tarde a jogar. E o professor não pode exigir a esse aluno que se deitou às quatro da manhã a jogar o mesmo que pode exigir a um que, por acaso, até nem sequer tem um grande apoio familiar, nem muitos livros e às vezes até nem tem internet. Já não pode exigir a esse aluno o mesmo que exige a um aluno que tenha uma biblioteca impecável, com os pais que não o deixam pôr o pé em ramo verde, que se deita cedo, que faz os trabalhos de casa, que estuda. Agora, qual é o melhor aluno e qual é o pior aluno? Não sei. São dois alunos com questões diferentes para resolver. E nós temos de ter a capacidade, para além de lhes ensinarmos inglês, geografia, aquilo que for, temos de ter a capacidade de os entendermos e de os ajudarmos. O aluno que se deitou às quatro da manhã, que não fez os trabalhos de casa, que chegou atrasado, esse vai reprovar o ano e o outro vai passar? Não necessariamente. O importante é nós percebermos porque é que as coisas acontecem e o ensino, a relação diária com os miúdos, dá-nos isso. Perceber que, claro, queremos dar o programa e avançar mas há sempre espaço para uma piada, para uma conversa, porque às vezes eles estão ansiosos para que nós nos manifestemos de forma mais tolerante com eles e mais amiga. Quando era professor no tempo do teu pai, eu ainda não tinha filhos, ainda não tinha família constituída. Agora já tenho 65 anos, começo a ver alguns alunos como se fossem meus netos, miúdos de 12, 13 anos, podia ser avô deles. Já tenho uma forma diferente de ver as coisas, que não tinha no tempo do teu pai. Era assim, assim e assim e acabou, não há mais discussão! Agora não, o mundo é outro, a vida é outra, o acesso à informação é outro. Aliás, vocês nunca tiveram tanto acesso à informação como agora. Antes nós tínhamos que ir à biblioteca, requisitar os livros, trazer emprestados, depois tínhamos não sei quantos dias para devolver. Não havia computadores, não havia nada. Agora vocês têm tudo, nem precisam de sair do quarto, é só carregar num botão e têm a informação toda, e se vocês souberem usar, isso é de uma utilidade brutal. Isso leva-nos o quê? À inteligência artificial. Muitos colegas meus estão preocupados com isso e eu também. Acho que tem de haver uma preocupação, mas também calma. Porque a inteligência artificial é uma ferramenta extremamente útil. Tem de ser usada com sabedoria. É como uma autoestrada, é útil mas é perigosa. Portanto, ensinar é a base de tudo. Ensinar é fundamental, conhecimento é fundamental. Conhecimento é uma arma, porque é com o conhecimento que nós vencemos as grandes batalhas da nossa vida. Não é com uma pistola, nem com uma espingarda, nem com uma espada. É com o conhecimento, saber coisas. E é isso que vocês não podem recusar, que é aprender. Têm de querer sempre aprender!

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